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Dando sentido ao trabalho

Começo o café de hoje voltando a rotina. Acabaram as férias dos meninos, a obra e o silêncio toma conta da casa. No celular, toca uma playlist enquanto eu começo a planejar a semana. Peguei minha xícara, me ajeitei na cadeira e te convido a pegar a sua.

A máquina lava as toalhas de banho, o cheiro de feijão fresco corre pela casa e o pensamento do sentido do trabalho tomou conta de mim. Durante anos relacionei o trabalho a algo árduo, que apenas com o suor do meu rosto conseguiria comprar o pão de cada dia e isso era muito pesado. Como eu trabalho desde os 14 anos e comecei na empresa da minha família, era natural nos encontros de finais de semana, esse ser o principal assunto.

Aquelas velhas frases repetidas por gerações que relaciona o trabalho a algo ruim, desgastante, que se espera a semana passar rápido para chegar o final de semana e “aproveitar”.

Os primeiros incômodos surgiram e eu comecei a me questionar se era possível ter um trabalho gratificante. Mas ainda era como num relacionamento, a gente acha que conto de fadas só existe no cinema. Será mesmo?

Quando passei a estudar o sentido do trabalho, entendi que o sentido junto com o fluxo e a liberdade são os três ingredientes básicos para uma carreira gratificante. Mas ficava sempre imaginando o que realmente é o sentido e como encontrá-lo. Existem cinco aspectos diferentes que podem tornar um trabalho significativo: fazer dinheiro, alcançar status, fazer a diferença, seguir nossas paixões e usar os nossos talentos.

A questão é a seguinte: qual dessas motivações deve ser a principal orientação em nossas escolhas profissionais? Devemos escolher um trabalho que ofereça melhor remuneração em detrimento de outro trabalho com um salário mais baixo, mas que oferece maiores perspectivas para nossos talentos criativos?

Seguir uma profissão só porque ela oferece uma boa compensação financeira e status não é garantia de uma boa vida. Com o tempo a conta chega e você vai se perguntar: o que estou fazendo aqui?

Um dos principais motivos pelos quais você está no seu trabalho hoje é porque o salário é bom? Quando faço essa pergunta nas aulas que dou sobre Carreira com Propósito, pelo menos metade das pessoas dizem que sim. E a resposta não me surpreende já que escolher uma carreira por causa dos benefícios é a motivação mais antiga e mais forte no mundo do trabalho.

Schopenhauer estava certo quando disse que “o dinheiro é a felicidade humana no mundo abstrato“. Então isso significa que devemos colocar nossa esperança de realização profissional em altos salários e gratificações? A resposta é não.

O castigo mais terrível para qualquer ser humano, seria a condenação a uma vida inteira de trabalho “absolutamente desprovido de utilidade e sentido”. Dostoiévski

A partir do momento que a nossa renda sobe e cobre as nossas despesas, novos aumentos surgem e adaptamos nossa despesa para o mais novo salário e o processo não tem fim. As expectativas aumentam e passamos de uma TV de tela plana para uma maior ainda, trocamos o carro, mudamos de casa. A medida que o salário cresce, o trabalho aumenta e nada disso contribuiu para a sensação de uma vida plena e significativa. Por isso tantos casos de pessoas bem-sucedidas com altos níveis de ansiedade e depressão.

A psicoterapeuta Sue Gerhardt, fez a observação mais realista que já li em seu livro The Selfish Society ( A sociedade egoísta): No ocidente ficamos presos nesses ciclos de luta e insatisfação sem fim, tentando nos manter em dia com as formas cada vez mais sofisticadas de exibicionismo consumista que vemos na televisão e internet. Queremos cada vez mais, ao que parece sempre em comparação com outras pessoas. E quem se comprara, perde.

Poucas pessoas tendem a ignorar o dinheiro completamente ao tomar uma decisão profissional, todos nós temos dívidas, boletos para pagar e família para sustentar. A verdadeira questão é o peso que devemos atribuir a ele.

Queremos olhar para trás e ter a certeza que fizemos a diferença na vida de alguém. Esse era o sentimento que me corroía quando eu colocava o meu dedinho na biometria do relógio de ponto. Ficava pensando em quantas horas estava desperdiçando do meu dia num lugar onde não tinha a possibilidade de fazer algo além de um trabalho burocrático.

E só compreendi que poderia mudar o curso da minha história, quando me deparei com uma frase de Martin Luther King que dizia assim: “Todos podem ser grandes porque todos podem servir.” E fui buscar dentro do meu coração, formas de servir as pessoas e poder ajudá-las a transformar suas vidas. Te parece um conto de fadas de cinema? Para mim também parecia, até o momento que entendi que eu deveria ser a história que eu gostaria de contar.

Vou lá pegar mais um pouquinho de café, mas deixo aqui a pergunta: como você pode servir hoje com o que sabe?

Beijo no ♥

Ticy

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