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A carreira da mulher

Me incomodava. Eu queria muito ter um crescimento profissional, mas vivia com o sentimento de culpa por não cuidar dos meus filhos direito. Era o sentimento de uma mulher, mãe e profissional que aos 32 anos morria de medo do que pensavam sobre a minha forma de maternar.

Ter trinta ou mais é aquele momento de conflitos internos, onde a mulher precisa decidir se engravida ou aceita a promoção. Se engravida ou muda de empresa, Se comunica a empresa o desejo de engravidar e corre o risco de ser demitida e por aí vai. Essa mulher em idade reprodutiva, cujo o relógio biológico está anunciando todos os meses que o tempo está passando. Essa mesma mulher que se divide entre o desejo de ser mãe ou uma profissional de sucesso, porque parece um sonho ter os dois.

Eu tive meus filhos um pouco antes, mas aos trinta e poucos sentia o peso da escolha. Vivia numa balança, como se querer ter uma carreira fosse abandonar os filhos e decidir cuidar dos filhos significava abandonar a carreira.

O trabalho era longe de casa, levava mais de uma hora de carro. Os meninos eram pequenos e eu exausta. Foi um ano difícil, de muita culpa e com muito medo de não estar presente nos principais momentos deles. Soma isso ao Daniel ser deficiente auditivo, impactar todo o seu desenvolvimento e as presenças constantes em terapias e tratamento médicos. Bastou uma ida dele a emergência acompanhado da babá, enquanto eu tentava chegar em casa, para eu bater o martelo. Algo precisava acontecer para validar meu sentimento e o lado mãe, falou mais alto. Pedi demissão para me dedicar a maternidade.

Primeiro mês como mãe em horário integral era tudo novidade. Minha rotina era preparar o café da manhã, levar os meninos a escola, ir a academia, preparar almoço, levar o Dani nas terapias, buscar na escola, levar o Caio nas atividades extras, preparar jantar, fazer alguma coisa por mim (nunca encontrava tempo) e esperar o marido chegar em casa. Nos intervalos fazia pães, geleias de amora, bolos de tudo quanto era tipo, tomava um mate com minha avó na varanda, ouvia as fofocas da família e no dia seguinte, tudo de novo.

Aguentei bem, foram dez meses de muita dedicação. Durante esse período estudei fotografia, me aventurei em alguns eventos para entender que amava fotografar mas não queria trabalhar com isso. Estudei, li alguns livros e o vazio chegou.

Eu não tinha mais assunto. Passada a novidade, não tinha mais sobre o que conversar. Comecei a perceber que estava desatualizada, que o mercado de trabalho não iria me esperar e que estava na hora de voltar.

Ninguém entendeu nada. Mas eu sabia o que estava passando aqui dentro. Por mais que admirasse as mães perfeitas, eu entendi que isso não existia na vida real. Esse julgamento era muito pessoal e que no final das contas, não importava mais o que as pessoas pensavam sobre mim. E eu já tinha me julgado o suficiente.

Eu seria mãe e também teria uma carreira. E isso no futuro faria diferença para minha família e principalmente para mim. De nada adiantava meus filhos terem a minha presença o tempo todo mas sabendo que eu estava infeliz. Que mensagem eu iria passar para eles?

Lembro que conversamos e eu expliquei que tinha decidido voltar a trabalhar e que novamente eles teriam alguém para cuidar deles enquanto eu estivesse fora. Sem aquele papo de que “a mamãe precisa ajudar o papai com as contas da casa” e sim dizendo o quanto isso era importante para mim. Foi um papo honesto e necessário sobre valores e a carreira.

Hoje, olhando para trás eu vejo como é difícil ser mulher, mãe e profissional ao mesmo tempo. Ainda sinto uma tristeza por termos que optar quando não existe apoio por parte da empresa e saber que somos a maioria que ainda precisa fazer essa opção. Mas por outro lado, percebo que a nossa história é uma forma de conscientizar as empresas que não é justo esse critério de avaliação, que essa régua imposta no processo seletivo está mascarada por uma história ultrapassada e que hoje esse tipo de conduta já podemos chamar de preconceito.

O café de hoje é um convite para olharmos com mais carinho aos sentimentos. Se eles estão aí por você ou porque alguém te disse como sentir. Se você escolhe viver ou sobreviver, e confesso que só um café não foi o suficiente para falar sobre esse assunto, peguei um bolo de laranja de ontem e passei uma colher de nutella para aumentar a emoção.

As vésperas de completar 41 anos, eu percebo que eu vivi e meus filhos passam bem.

Beijo no ♥

Ticyana Arnaud